Por que Sociedades Médicas dão Errado (e ninguém te conta isso)!
Crescer sozinho costuma ser mais simples de administrar. Quando o consultório é de um médico só, as decisões acontecem com rapidez, a rotina tem menos ruído e a direção do negócio fica clara.
Só que, conforme a demanda aumenta, muitos profissionais começam a enxergar vantagens em dividir estrutura, custos e operação com outros médicos. A ideia de montar uma clínica com sócios parece um passo natural, e muitas vezes é mesmo. O problema é que, nesse momento, alguns riscos mudam de patamar.
No trecho do GuiaConsultório #04, o convidado descreve com muita honestidade o que costuma estar por trás do fracasso de diversas sociedades médicas.
E a conclusão surpreende quem imagina que o maior perigo é “um sócio mau-caráter”: na maioria dos casos, o que destrói uma sociedade não é roubo, golpe ou algo extremo, e sim o desgaste do dia a dia provocado por desalinhamento, falta de regras claras e ausência de conversas difíceis no começo.
Quando o consultório deixa de ser “um médico só”, o jogo muda
Um consultório individual pode até ter desafios de gestão, mas existe uma vantagem óbvia: a tomada de decisão é centralizada. O médico define horários, investimentos, equipe, sistemas, posicionamento e prioridades. Se algo precisa mudar, muda. Se algo precisa ser cortado, corta.
Quando a clínica passa a ter sócios, surge um componente que não existe no modelo solo: uma relação humana contínua, baseada no desenvolvimento de um negócio. Por isso a conversa traz uma comparação que é ao mesmo tempo bem-humorada e bastante realista: sociedade se parece com um casamento, com a diferença de que é um “casamento sem o amor”, sustentado por dinheiro, objetivos, trabalho e, muitas vezes, uma amizade que funciona bem enquanto tudo vai bem.
Esse ponto não é para desestimular sociedades. É para lembrar que, quando elas dão certo, são poderosas. Mas quando são montadas de forma ingênua, elas tendem a gerar conflitos que travam decisões, drenam energia e podem comprometer o próprio futuro da clínica.
O motivo mais comum do fracasso não é má-fé: é desalinhamento
No trecho, aparece uma observação importante: casos extremos, como um sócio “roubar” o outro, existem, mas são raros. O que mais derruba sociedades é algo mais banal e, por isso mesmo, mais frequente: o desgaste diário provocado por desalinhamento.
Desalinhamento pode ser muita coisa. Pode ser diferença de visão sobre crescimento, divergência sobre reinvestimento e distribuição de lucros, discordância sobre padrão de qualidade e atendimento, atrito sobre contratação e demissão de funcionários, ou mesmo conflitos de estilo de liderança.
No começo, essas diferenças ficam escondidas porque há entusiasmo, planos e a sensação de que “a gente se entende”. Com o tempo, quando surgem pressões e decisões difíceis, aquilo que não foi combinado vira motivo de frustração.
A grande questão é que, no mundo empresarial, desalinhamento precisa ser transformado em regra clara. E é aqui que entram os instrumentos jurídicos citados no episódio.
O contrato social
A conversa explica que a forma de refletir juridicamente a relação entre sócios começa pelo contrato social. Ele é o documento que formaliza o nascimento da empresa, descreve seu tipo societário e organiza aspectos básicos, como participação de cada sócio, forma de votação, quóruns e regras gerais de funcionamento.

Em sociedades como a limitada, por exemplo, esse contrato fica arquivado na Junta Comercial, o que traz uma característica importante: ele é público. Isso significa que qualquer pessoa pode ter acesso ao documento, o que influencia o que faz sentido colocar nele e o que é melhor tratar em instrumentos mais reservados.
O contrato social, portanto, é a base. Mas ele nem sempre é suficiente para prevenir conflitos do cotidiano ou para tratar de situações sensíveis.
A armadilha do 50/50
Um ponto específico do episódio merece atenção porque é um erro clássico em sociedades médicas. Muitas pessoas pensam em dividir tudo meio a meio. Uma sociedade 50/50 parece justa, porque “ninguém manda mais do que ninguém”.
Só que, na prática, esse equilíbrio perfeito pode criar paralisia. Se um não decide, o outro não consegue avançar. Se um discorda, nada acontece. Em decisões do dia a dia, isso vira desgaste. Em decisões estratégicas, pode travar crescimento, investimento e até a resolução de conflitos.
O problema não é necessariamente a divisão em si, mas a falta de mecanismos para destravar impasses. E é justamente aí que surge a necessidade de um documento complementar, mais detalhado e pensado para conflitos reais.
Acordo de sócios: o “pacto” que organiza as conversas difíceis sem ser público
O episódio introduz o acordo de sócios como um instrumento particular, usado para organizar regras estratégicas e sensíveis que não são ideais de ficar expostas no contrato social. A lógica apresentada é simples: você constitui a sociedade, formaliza no contrato social o que precisa estar lá, e em paralelo faz um acordo privado entre os sócios, com regras objetivas para situações que podem gerar atrito.
A conversa traz exemplos muito práticos. Imagine que os sócios discordem sobre demitir um funcionário. Como decidir? Um caminho é definir critérios objetivos: performance, conduta, indicadores, metas, feedbacks. Se surgir conflito, a decisão não fica refém do humor do dia ou de uma disputa pessoal, mas de regras previamente combinadas.
O mesmo vale para um cenário inevitável em muitas sociedades: a separação. Um sócio quer sair, outro quer continuar. Como dividir patrimônio? Como calcular o valor da empresa? Como definir pagamento, prazos e responsabilidades? Se isso não está estruturado, a saída vira um “divórcio litigioso”. Se está combinado, aumenta muito a chance de ser um “divórcio consensual”, preservando o negócio e reduzindo danos emocionais e operacionais.
Um detalhe importante citado no episódio é que o acordo de sócios, por ser documento particular, não fica público. Ele precisa ser bem formalizado, assinado e com elementos que deem robustez probatória, para servir de base caso um dia seja necessário discutir algo juridicamente.
O grande erro: fugir da conversa difícil no começo
Talvez a mensagem mais valiosa do trecho seja psicológica e prática ao mesmo tempo: sociedades dão errado quando os sócios têm “preguiça” de conversar sobre cenários ruins e quando falta grandeza para encarar conversas desconfortáveis ainda no início do relacionamento empresarial.
É comum o médico entrar na sociedade com clima de festa: “vamos abrir uma clínica”, “vai ser ótimo”, “vai dar certo”. E é justamente aí que muitos evitam o assunto que mais protegeria o futuro: “E se der errado? Para onde vamos? Como saímos disso?”
Quando essas perguntas são respondidas no começo, a sociedade tende a caminhar melhor, porque o restante é trabalho. Cada um sabe seu papel, as decisões têm regras, os conflitos têm trilhos e a saída tem um caminho desenhado. Mesmo se a clínica não der certo comercialmente, ao menos existe previsibilidade para encerrar ou reorganizar, sem transformar tudo em guerra.
Não é só sobre crescer: é sobre não dar passos para trás
Em um trecho muito relevante, a conversa amplia a visão. A estruturação societária não serve apenas para abrir caminho para crescimento; ela evita retrocessos.
Litígios societários drenam o emocional, roubam foco e podem contaminar o ambiente. Colaboradores percebem quando “as coisas não estão bem” entre os sócios. Isso afeta motivação, produtividade, confiança e estabilidade da equipe. E quando a equipe sente insegurança, o paciente tende a sentir também, ainda que de forma indireta. O resultado é que uma crise societária pode virar crise operacional, depois reputacional e, por fim, financeira.
Por isso o episódio enfatiza que definir regras não é apenas para “resolver conflito”. É para manter o negócio saudável mesmo diante de intercorrências inevitáveis ao longo do tempo.
O que deve ficar no contrato social e o que é melhor deixar no acordo de sócios
O trecho também traz uma explicação útil para quem não entende bem a diferença prática entre os documentos.
A sociedade é regida pelo contrato social e pela legislação. Existem regras legais que não podem ser alteradas por vontade dos sócios. Ao mesmo tempo, existem muitas escolhas contratuais possíveis, como quóruns de votação e regras para aprovação de mudanças estratégicas.
O episódio cita exemplos comuns de decisões que precisam de regra clara: mudança de endereço, mudança do nome do negócio, admissão de novos sócios e venda de participação. Quantos sócios precisam concordar? Qual percentual aprova? O que acontece se um sócio quiser trazer um “quinto” sócio para uma sociedade de quatro? Sem regra, vira conflito.
A recomendação apresentada é que o contrato social concentre pontos menos sensíveis e mais “consultáveis”, já que é público. Já questões estratégicas, detalhes de saída, critérios de decisão em conflitos e informações que os sócios não querem expor ao mercado podem ficar no acordo de sócios, que é particular.
O papel do contador e do advogado na constituição de sociedades mais saudáveis
O trecho reforça que bons contadores ajudam muito na estruturação societária e na organização inicial do negócio. Só que, quando a sociedade fica um pouco mais complexa, envolve particularidades ou tem mais sócios, vale conversar com um advogado com domínio de legislação societária.
A razão é simples: além das regras fiscais e contábeis, uma sociedade é uma estrutura jurídica com nuances que, se ignoradas, podem gerar custos altos depois. Quando contador e advogado trabalham de forma complementar, a sociedade tende a nascer com mais clareza, mais previsibilidade e menos espaço para conflitos futuros.
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