Consentimento Informado na Prática: Quando Precisa, como Fazer sem Assustar o Paciente?

Consentimento Informado na Prática: Quando Precisa, como Fazer sem Assustar o Paciente?

Imagine a seguinte cena: o paciente chega ao consultório para uma pequena cirurgia dermatológica. Já está um pouco ansioso, naturalmente. Ao final da explicação, o médico entrega um papel com uma série de termos jurídicos, complicações raras e uma advertência sobre risco de morte. O paciente assina, apreensivo, mas sai dali com muito mais dúvidas do que entrou.

Infelizmente, esse tipo de abordagem ainda é comum, e completamente contraproducente.

O consentimento informado não é uma mera formalidade. Muito menos uma forma de “proteger” o profissional jogando todo o ônus da decisão sobre o paciente. Ele é, acima de tudo, uma oportunidade de estabelecer confiança, fortalecer vínculos e empoderar o paciente em sua jornada de cuidado. Mas, para isso, é preciso entender quando e como usá-lo, e como fazê-lo direito, sem assustar ou confundir.

Neste post, vamos desmistificar o processo, mostrar como aplicá-lo de forma eficaz e humanizada na rotina clínica e oferecer orientações práticas sobre linguagem, estrutura e modelos por procedimento.

O consentimento como parte do cuidado

Antes de falar em papel e assinatura, é importante retomar o conceito: consentimento informado é um processo, não um papel.

É o resultado de um diálogo claro, honesto e acessível entre profissional e paciente, no qual são discutidos os objetivos, riscos, alternativas e limitações de uma intervenção ou tratamento. Só depois dessa conversa, e com real compreensão do que está sendo proposto, o paciente pode dar seu aceite, verbal ou por escrito, de forma livre, sem coação e com tempo para refletir.

Essa prática está respaldada pela ética médica (Art. 46 e 59 do Código de Ética Médica) e pela legislação brasileira, e vai muito além de uma exigência legal: ela representa respeito à autonomia e à dignidade do paciente.

Quando o termo é obrigatório?

Ainda existe confusão sobre quando é necessário formalizar o consentimento por escrito. De forma geral, o termo é indispensável sempre que o risco for significativo, e a intervenção puder trazer efeitos colaterais, complicações ou mudanças no curso de vida do paciente.

Situações em que o consentimento por escrito é indicado:

  • Procedimentos invasivos ou cirúrgicos, com anestesia ou manipulação interna;
  • Procedimentos estéticos, inclusive minimamente invasivos (como preenchimentos ou harmonização);
  • Transfusões de sangue ou uso de hemoderivados;
  • Terapias com efeitos colaterais relevantes, como quimioterapia, imunoterapia ou uso de psicotrópicos;
  • Pesquisas clínicas com seres humanos;
  • Internações hospitalares ou exames invasivos, como colonoscopia, biópsia, cateterismo etc.

Já nas práticas clínicas cotidianas, consulta, prescrição de medicamentos comuns, aferição de sinais vitais, o registro da conversa no prontuário é suficiente. O mais importante, nesses casos, é garantir que houve explicação adequada e anotação no prontuário.

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Como obter o consentimento sem gerar medo?

Essa é uma das maiores dificuldades enfrentadas por profissionais. Afinal, como comunicar riscos e incertezas sem causar pânico? A resposta está na forma como a informação é apresentada.

Aqui vão estratégias que funcionam na prática:

1. A conversa vem antes do papel

Jamais entregue um termo antes de ter um diálogo honesto e acessível. Primeiro, explique de forma oral o que será feito, por que é necessário, o que esperar do procedimento, quais os possíveis riscos e quais alternativas existem. Só depois, o termo de consentimento faz sentido, e será apenas um registro do que já foi compreendido.

2. Use linguagem clara, sem “mediquês”

Evite jargões e termos técnicos. Diga “retirada de um nódulo” em vez de “exérese de lesão subcutânea”. Fale em “possibilidade de sangramento local” e não em “hemorragia perioperatória”. A linguagem médica pode intimidar. A linguagem humana aproxima.

3. Comunique os riscos com naturalidade

Não banalize os riscos, mas também não os transforme em tragédia. Uma forma de fazer isso é contextualizar:

“Todo procedimento envolve algum risco, mas vamos tomar todas as precauções para minimizar qualquer chance de complicação. A maior parte dos pacientes passa por isso sem nenhum problema.”

E prefira descrever o que pode ser sentido ou percebido, não apenas o termo clínico:

“Pode haver um pouco de inchaço e desconforto nos primeiros dias, que melhora com gelo e medicação.”

4. Evite a pergunta genérica “tem alguma dúvida?”

Essa frase costuma gerar silêncio. Em vez disso, pergunte:

“O que ficou confuso para você?”
“Quer que eu explique alguma parte de novo?”
“Se você fosse explicar esse procedimento para alguém da sua família, como você contaria?”

5. Envolva o paciente na decisão

Isso significa apresentar opções reais, inclusive a opção de não fazer o procedimento. Fale sobre o que acontece com e sem o tratamento. Isso aumenta a sensação de controle e segurança.

O que o termo de consentimento deve conter?

Um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) não precisa ser um tratado jurídico. Mas também não pode ser genérico demais. Ele deve ser específico para o procedimento, claro, direto e acessível.

Aqui está uma estrutura prática e aplicada:

  • Identificação: nome do paciente, do profissional e data.
  • Descrição do procedimento: o que será feito, como e para que serve.
  • Riscos e complicações comuns: o que pode acontecer com frequência.
  • Riscos raros, mas relevantes: quando aplicável, sem alarmismo.
  • Alternativas existentes: inclusive a opção de não tratar.
  • Consequências da não realização: o que pode acontecer sem a intervenção.
  • Espaço para revogação: o paciente pode desistir a qualquer momento.
  • Assinatura do paciente ou responsável legal, com cópia para ambos.

Evite usar modelos genéricos para todos os procedimentos. Um TCLE para cirurgia ortopédica não serve para um procedimento dermatológico, e muito menos para um preenchimento labial. Sempre adapte o conteúdo à realidade do paciente e ao contexto clínico.

Exemplo prático de linguagem acolhedora (Termo vs. Conversa)

SituaçãoLinguagem técnica e alarmistaLinguagem clara e acolhedora
Pós-operatório“Alto risco de deiscência e necrose de retalho.”“Pode haver um tempo maior de cicatrização, por isso vamos acompanhar de perto a evolução.”
Anestesia“Risco de óbito ou choque anafilático.”“A anestesia é segura, mas como todo procedimento médico, existe um pequeno risco, que será monitorado pela equipe especializada.”
Estética“Não há garantia de resultado satisfatório.”“Faremos o possível para alcançar o melhor resultado, mas cada organismo responde de forma única.”

Consentimento bem feito protege e aproxima

Muitos profissionais enxergam o consentimento como uma burocracia ou um escudo jurídico. Na verdade, ele é um instrumento de cuidado. Quando bem aplicado, reduz a chance de judicialização, sim, mas também melhora a relação com o paciente, fortalece a confiança e torna as decisões mais compartilhadas.

E vale lembrar: não é porque o paciente assinou que está tudo certo. Se ele não entendeu, o termo perde sua força. O ideal é que, ao final do processo, o paciente se sinta confortável, seguro e respeitado.

Ferramentas para facilitar esse processo

Com a digitalização dos serviços de saúde, hoje já é possível integrar o consentimento informado ao fluxo de atendimento de forma prática e segura.

O Prontuário Eletrônico do BoaConsulta, por exemplo, permite registrar e arquivar consentimentos de forma organizada, vinculando diretamente ao atendimento. Já a Agenda Inteligente facilita o agendamento de retornos específicos para discussões de procedimento, com tempo adequado para tirar dúvidas.

Além disso, com a Telemedicina BoaConsulta, é possível realizar esse diálogo pré-procedimento de forma remota, ideal para pacientes em outras cidades ou com mobilidade reduzida.

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