Recentemente, seis alunos do 4º ano de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) tentaram se suicidar. Na Faculdade de Minas (Faminas- BH), num período de 40 dias, foram cinco tentativas de suicídio, onde duas dessas tentativas levaram ao falecimento das vítimas. O motivo possível: a sobrecarga dos alunos durante o curso de Medicina.

E essa sobrecarga pode se manter após a formatura. No I Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina, em 2017, uma pesquisa da Câmara Técnica de Psiquiatria revelou que 48,5% dos médicos descrevem já ter experimentado a sensação de esgotamento — um sintoma compatível com a Síndrome de Burnout — em algum momento durante a carreira.

Nos outros países, a situação não é muito diferente. Publicações recentes do New England Journal of Medicine (NEJM), relatam que cerca de 400 médicos morrem por suicídio todos os anos nos Estados Unidos e, em 2014, 54% dos médicos do país reportavam algum sintoma da Síndrome de Burnout. Há ainda um risco maior de incidência desse distúrbio em especialidades responsáveis pelo atendimento inicial do paciente, tais como: clínica médica, medicina da família, neurologia e emergência.

Mas afinal, o que é a Síndrome de Burnout? Por que os médicos são tão afetados? Como garantir uma carreira de sucesso sem sofrer desse problema? Confira a resposta para essas e outras perguntas aqui neste post.

O que é a Síndrome de Burnout?

Descrita pela primeira vez em 1974, em estudo do psicólogo alemão (radicado nos EUA) Herbert J. Freundenberger, a Síndrome de Burnout (ou síndrome do esgotamento profissional) se caracteriza por um excesso crônico de estresse ocupacional que leva a exaustão emocional e física, além da redução da capacidade pessoal.

Esse transtorno não consta no DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), mas no CID-10 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) ele recebe a classificação Z730 — Esgotamento, presente dentro da categoria de Problemas relacionados com a organização do modo de vida (Z73).

Quais os sinais e sintomas de Burnout?

O Burnout pode provocar inúmeros sintomas mentais e físicos. Entre os principais, destacam-se:

- sensação de esgotamento físico e emocional;

- absenteísmo;

- oscilação de humor;

- ataques de ansiedade;

- ideação suicida;

- dificuldade de concentração;

- depressão;

- dores de cabeça frequentes;

- palpitações cardíacas;

- dores musculares;

- distúrbios do sono;

- diminuição da libido e impotência sexual;

- sudorese.

Qual a diferença entre a Síndrome de Burnout e a depressão?
Ainda não existem limites claros entre a Síndrome de Burnout e a depressão. Alguns autores defendem a ideia que o Burnout seria apenas uma das possíveis manifestações de um transtorno depressivo maior, enquanto que, para outros autores, a Síndrome de Burnout apresenta uma característica importante que a distingue da depressão: ela está diretamente associada ao trabalho e à execução de tarefas relacionadas à profissão.

Quem pode ter a Síndrome?

Qualquer profissional está suscetível a desenvolver a Síndrome de Burnout, mas as áreas que demandam um envolvimento interpessoal mais intenso são consideradas de maior risco, como no caso da medicina.

Os casos de Burnout são ainda mais comuns em mulheres jovens que enfrentam a jornada dupla de trabalho fora e dentro de casa e em pessoas que costumam realizar atividades laborais fora do horário de trabalho, que valorizam excessivamente as conquistas profissionais em detrimento de outros aspectos da vida e que tem descaso com as necessidades pessoais (alimentação, sono, descanso, lazer, etc.).

Por que os médicos são tão afetados por esse transtorno?
A carga horária de trabalho dos médicos é extensa. A sobrecarga tem início ainda nos primeiros anos de faculdade e se mantém ao longo de toda a carreira.

Nos primeiros anos após a formatura, o esgotamento costuma ser ainda maior. O médico recém-formado tem que continuar os estudos, passar em uma prova de residência ou buscar uma pós-graduação, para obter maior reconhecimento no mercado, ao mesmo tempo em que se sobrecarrega para aumentar a remuneração mensal, compensar todos os anos de estudo e pagar dívidas acumuladas durante a faculdade.

Além disso, outras características da profissão contribuem para o Burnout, como:

- impedimentos burocráticos e econômicos para melhor atender o paciente;

- maior incidência de distúrbios psiquiátricos, como depressão e alcoolismo;

- tentativa de manutenção da imagem do médico como super-herói;

- atualização constante do conteúdo médico quanto a métodos diagnósticos e tratamentos;

- redução crônica do convívio social;

- múltiplos vínculos empregatícios;

- cobrança social excessiva;

- relatos de assédio moral e agressões físicas por pacientes.

Como diagnosticar e tratar a Síndrome de Burnout?

O diagnóstico de Burnout deve ser feito por profissionais especializados e qualificados em saúde mental, levando em consideração todo o contexto laboral do indivíduo e o resultado de avaliações psicológicas. O mais importante é estabelecer a relação entre os sintomas e o trabalho.

Durante uma crise aguda, a solução é fazer uma mudança brusca na rotina para dar ao corpo e à mente um momento de descanso. Assim, é essencial que a pessoa tire férias, faça uma viagem com a família ou com os amigos e invista em momentos de relaxamento. Durante o descanso, fica mais fácil estabelecer novos hábitos de vida e incluir atividades prazerosas na rotina diária.

Outra medida importante é a realização de sessões de psicoterapia. Para o tratamento da Síndrome de Burnout, os tipos mais recomendados são a terapia cognitiva comportamental, o coaching e o mentoring com foco na relação do indivíduo com a profissão, na mudança do ambiente de trabalho e no controle dos sintomas.

Em alguns casos, também pode ser necessário fazer uso de medicamentos antidepressivos para maior controle dos sintomas e aceleração da recuperação mental.

Como prevenir o surgimento da Síndrome de Burnout?

As mudanças na rotina são a principal forma de prevenir a Síndrome de Burnout. É importante manter um equilíbrio saudável entre a vida pessoal e profissional, priorizando um tempo para o lazer com a família e os amigos, por exemplo. Para isso, é válido seguir as seguintes orientações:

- definir valores e prioridades na vida;

- reavaliar os objetivos profissionais;

- reorganizar a dinâmica no ambiente de trabalho;

- evitar o consumo de álcool e outras drogas para alívio de ansiedade e outros transtornos;

- praticar exercícios físicos regularmente;

- desfrutar de momentos de relaxamento diariamente;

- investir em hobbies;

- ter boas noites de sono;

- evitar o excesso de horas de trabalho;

- buscar o apoio de colegas da área;

- manter uma vida social ativa;

- ter uma alimentação saudável;

- buscar ajuda quando necessário;

- aceitar as limitações do corpo e da mente.

Quais são as especialidades recordistas em burnout?

Apesar da Síndrome de Burnout ser muito comum entre todos os meios da Medicina, ela é ainda mais prevalente em algumas especialidades médicas, conforme dados da pesquisa Archives of Internal Medicine.

Terapia Intensiva

Não é difícil imaginar que os intensivistas estão entre os profissionais que mais sofrem com a Síndrome de Burnout, afinal, o ambiente de uma UTI é sempre estressante e o nível de complexidade dos pacientes exige não apenas muita capacitação técnica, mas também muitas horas de prontidão e trabalho.

Medicina de emergência

A medicina de emergência, como o próprio nome diz, é aquela que envolve os casos mais graves e, por isso mesmo, também exige bastante dos seus especialistas. Mais uma vez, os horários podem ser os mais variados e isso atrapalha o ciclo de sono e aumenta os níveis de ansiedade e estresse.

Esteja atento aos sinais que seu corpo envia. Como diz o ditado popular, “em casa de ferreiro, espeto de pau”, muitas vezes estamos tão ocupados priorizando nossos pacientes que não estamos atentos à nossa saúde física e mental.

Tenha em mente aquilo que sempre aprendemos na faculdade: somente com informação é possível a prevenção!

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